Hoje eu tô down

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Pinto de azul o teto do meu quarto. Queria que tivessem estrelas também e que a cor mudasse de acordo o tempo lá fora, invariavelmente chuva e tempestade. Tenho o resto do dia agora e a solidão, a sala vazia e a música tocando; prefiro a eletrônica, enche a casa de movimento. One Love. Se eu paro e deixo a emoção subir superfície da pele, dá uma tristeza, um alheamento úmido, pois os olhos desejam veter oceanos de lágrimas. Algo falta aqui dentro. Alguma pespectiva, algum sonho, algum amor. Outras vezes estou completo, transbordando histérico. Essa é a pior parte.

dor?

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Conhece a tua dor? O quão profunda a sua ferida pode ser? O quanto ela pulsa e sangra? O quanto ela se alastra em sua carne necrosando-a? O pavor da morte que ela provoca? O medo nos seus olhos de que nunca mais os veja à luz, nem olhos de alguém amado? Conheces mesmo a sua dor?

Conversa

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- Tô precisando do carinho do seu corpo todo, dedos, unhas e pelos, do seu calor e do seu amor. Me dá.
- Se tivesse ai com certeza lhe consolaria, mas eu não sou peludo.
- Todo mundo tem pelos, independente da abundância ou não deles.
- É razoável
- Haverá sempre um "se" entre nós?
- Como assim? Me explica.
- Bem. Toda a vez que falamos sobre os nossos desejos, sobre a atração que temos um pelo outro
e do quanto gostariamos de saciar essa vontade, há sempre um "se": "se" eu estivesse aí. Há sempre a distância, há sempre outras pessoas, há sempre o medo, há sempre a incapacidade de realmente se dar arriscando o que seja necessário para provar o mel na colmeia entre os ferrões das abelhas. Entende?
- Voce é inteligente, gosto disso.
- Isso é um elogio, não uma resposta.
- [...]
- Você não tem uma resposta ou não quer responder, ou tem medo de dizer? O seu silêncio é uma resposta?
- [...] somos amigos, não?
- Aí é que está o problema. Somos muito mais do que amigos. Um amigo não cobra nada, mas também dá muito pouco.
- [...]
- Eu estou me dando a você. Tem coragem de colher o fruto dos meus labios?

As cartas Proibidas I

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Capítulo I


O casarão ficava num antigo bairro no centro da cidade, perdida entre casas onde apenas velhos ainda se escondiam por trás das janelas de madeira e vidros coloridos e cafonas, sobreviventes solitários em convivio com empregados ou filhas e netos que os visitavam raramente. Apodrecia tão decrépito e decadente quanto o bairro em que se localizava, talvez fosse ele o símbolo máximo de uma época já perdida no tempo, na escuridão dá qual emergiu, lugar onde as poucas sombras com memória rezavam desesperadas para que de lá nunca saísse. Imponente, com seus altos muros de pedra e metal, e seu amplo e mal cuidado jardim de flores mortas e mato alto, o casarão escondia-se com densas cortinas escuras por trás das janelas de vidro embaçado definhava ambadonada, entre ainda longínquos prédios vizinhos assomavam aos céus cada vez que um antigo casarão era derrubado, ou solidáriamente restaurado em favor dos valores mortos. Seus sofás antigos e amplas camas nas alcovas dos fálecidos donos, serviam apenas para os netos dos vizinhos utilizassem como motel com alguma puta vulgar o bastante para aceitar deitar-se em lençois empueirados com manchas secas de sangue e esperma.


Aquele casarão, de outra riqueza e elegância, havia sido legado aos ratos e só a eles deveria pertencer por direito. Esquecido entre seus muros, a sua estória, que também não era do interesse de ninguém, dissolvia-se em seu porão com os segredos que, com sorte, permaneceriam desconhecidos para sempre. A menos que o seu teto voltasse a ser habitado. E foi.


*O dono da casa*


André mal sabia para onde estava indo quando o caminhão da mudança parou em frente a um antigo casarão e seu pai desceu, abrindo o portão para que os carregadores pudessem depositar os pertences da sua família dentro da nova residência, que de nova nada tinha. O casarão havia sido parcamente limpo por duas diaristas que o seu pai havia contratado para o trabalho uma semana antes. Da maquiagem de limpeza, ainda se podia sentir o cheiro de mofo mascarado pelo ácido cheiro do desinfetante de lavanda - "o cheiro da sua nova vida", pensou pesaroso e conformado. Seu pai como o comandate indiferente que era, coordenava o trabalho dos carregadores e das empregadas, entrertido o suficiente para cometer a glória de esquecer da existência de André, até por que este em nada lhe seria útil. Caminhando pelo mato no fundo da casa, o menino apenas se recolheu a música silenciosa do seu mp3 e a inanidade, enquanto esperava que a escuridão chegasse e a calma tomasse conta da casa, quando a voz do seu pai não mais seria ouvida.




A noite em sua nova cama (que de nova tinha apenas o lugar que agora ocupava; último quarto do corredor do primeiro andar, a esquerda), onde da janela assomava uma imensa mangueira sem frutos, foi longa e inquita. Sem arcondicionado, André foi obrigado a dormir com a janela aberta, janela que dava de frente para a casa ao lado, de onde vinham o som seco dos violentos acessos de tosse de um senhor. As tosses, quase ritmadas, eram tão recorrentes e incomados que André se levantou irritado e foi até a janela, por ela viu o quarto do senhor com a luz acesa e uma acompanhante medicando-o. Uma visão vulgar e desestimulante, como os presságios de um futuro do qual seria capaz de tudo para escapar. Seus olhos cansados escaparam da cena entediante investigando sem interesse a escuridão de outras janelas de outros quarto. Ao lado, entre cortinas transparentes, sob uma tênue luz avermelhada, um rapaz abandonado a intimidade do seu quarto dançava com seu mp3, descalço, sem anéis, sem camisa, sem calça, sem cueca.